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sexta-feira, 13 de maio de 2011

TERROR CONTEMPORÂNEO – A1 (04/05/2011)


no tempo da negação, podia ser útil examinar o problema do suicídio. No tempo das ideologias, é preciso decidir-se quanto ao assassinato.” Albert Camus

Em muitos países, de acordo com o avanço das informações, pudemos observar de forma crescente o intumescimento, o ânimo, a festa generalizada. Pouco a pouco, além das comemorações, foram aparecendo na mídia internacional outros fenômenos oriundos das mesmas notícias: piadas, paródias, eventos, manifestações (públicas e privadas, coletivas e individuais), de uma certa forma - levando em consideração os “meios” modernos -, o mundo “reagiu” à informação bombástica: “- Bin Laden fora assassinado!”

Ao grande feito, enfileram-se os tributos: presidentes, chefes de estado, celebridades, um após o outro, elogiaram e renderam homenagens ao orgulhoso “autor” da façanha, um Obama sorridente e de olhar progressista. Dentre as manifestações citadas acima, no entanto, houveram aqueles mais incrédulos, aqueles que frente a um ato tão grandiosamente sublime, teimaram em não acreditar. Um até chegou a exigir atestado indelével da morte do terrorista, com foto, vídeo e, se possível, até exame de DNA que dirimissem completamente suas dúvidas. Logo apareceram pequenos vídeos da mansão arruinada, do fogo e do sangue cobrindo o chão de onde seria o esconderijo do “desafortunado” Osama. Junto com essas pequenas “provas”, como é de costume, explanações técnicas sobre a exímia “operação”, como, quando e com que meios o ilibado exército americano chegou a tal empreendimento e até como o mais novo e inexorável Prêmio Nobel da Paz, assistiu a tudo “em tempo real” num alojamento da mais alta tecnologia.

Tudo isso não parece conter nada de anormal.

As explosões festivas de populares em todo o mundo, a torrente de opiniões superficiais, de declarações frágeis e impensadas.

Estamos todos cegos, vivemos um mundo de mentiras.

Tenho duas “instâncias” a destacar nesse momento e não me sentiria disposto a tomar partido de nenhuma delas. São ambas nocivas e pérfidas, ambas terríveis. Alguns podem imaginar ser impossível dizer “esta é pior”, porém, é muito simples e visível: é mais nocivo quem tem mais poder e, consequentemente, mais possibilidades de fazer o mal. Julgo desnecessário expor uma opinião inútil sobre quem tem mais poder nesse caso em especial. É demasiado óbvio.

De um lado temos Osama (nesse caso apenas um símbolo para o terrorismo, ilustração para o motivo do texto) representante do terrorismo fundamentalista, do fanatismo religioso e capaz das maiores atrocidades para destruir a “incredulidade do ocidente”. Um monstro. Desses que vêem, na sua crença, suporte para todo tipo de crimes. Do outro lado, Obama (apenas um símbolo da nação estadunidense, também uma ilustração) representante do poderio militar e financeiro mundial, da manipulação de informações internacionais, do controle da grande mídia alienante, das armas nucleares e da atividade em todas as grandes guerras do nosso tempo. Outro monstro. Desses que também veneram um deus, esse mais real, plausível e uniforme entre os povos, ainda que menos ortodoxo: o dinheiro (em nome deste, mais do que de qualquer outro, os crimes tem sido perpetrados).

Esse é um terreno de impasses. Todos os tipos de absurdos, crimes e tragédias, todo tipo de vileza. A isso eu interrogo: é a esse tipo de espetáculo que o mundo dirige seus aplausos?

O mundo está repleto de ideologias. Nenhuma consistente. Elas, deixaram de ser formas abstratas nas mentes e nos discursos ferozes de combatentes e militantes para estabelecerem-se em dois lugares duplamente vãos: na conveniência de alguns e na história pura, sem refratações. É uma grande ironia lamentar algo ultrapassado como a ideologia apenas pela tristeza vazia da atualidade.

Obama matou Osama, pois bem, e aí? Terá sido exterminado o terrorismo da face da terra? Não, senhores. A própria causa ainda subsiste. Que seria de Bush sem a desculpa do terror para reerguer seu governo em situação precária? O terror o fortaleceu, o medo da população o deu o fôlego que precisava para invadir o Iraque e o Afeganistão, controlar o petróleo e matar os inimigos do imperialismo. Poucas horas depois de anunciada a EXECUÇÃO de Osama Bin Laden Barak Obama já havia subido 8 pontos em aprovação popular. Fortuita consequência não acham? Por sorte ninguém pensa que ele queira se reeleger...

Nas torres gêmeas morreram milhares. A conta dos iraquianos mortos há muito passou de um milhão. É difícil concluir qual o verdadeiro terrorismo?

Concluindo. Há mais de vinte e cinco séculos, Sócrates e Críton dialogavam sobre a razão e a justiça de se responder a uma injustiça com outra. Beccaria no século XVIII demonstra esse absurdo na perspectiva da lei: “Não é absurdo que as leis, que são a expressão da vontade geral, que detestam e punem o homicídio, ordenem um morticínio público para desviar os cidadãos do assassínio?”. O filósofo destaca ainda, quão ineficaz é a pena de morte, seu alvoroço imediato, sua comoção instantânea, não duram na mente do povo, não é eficiente para proporcionar a desistência da ideia criminosa.

Matar um terrorista não elimina o terror, pelo contrário, incita-o. O assassinato, em todas as suas formas, não é justiça, é terror. Quem o pratica não será nunca um benfeitor, será um criminoso. Igualam-se algoz e vítima. Coloca-se a lei no patamar do crime.

A questão é semelhante a posta por Camus em “O Homem Revoltado”: “Se o assassinato tem suas razões, nossa época e nós mesmos estamos dentro dessa consequência. Se não as tem, estamos loucos, e não há outra saída senão encontrar uma consequência ou desistir. É nossa tarefa, em todo caso, responder claramente a questão que nos é formulada, no sangue e nos clamores do século.” (CAMUS, p. 14-15, 1996)

O crime de morte é a questão.

Há o que comemorar?

domingo, 17 de outubro de 2010

Literatura, engajamento e liberdade de expressão

É amplamente conhecido o “debate” célebre entre o escritor e filósofo francês Jean Paul Sartre com o também escritor Julien Benda por meio de suas obras. Enquanto Benda defende que o escritor deve se manter distante das questões sociais, Sartre por sua vez advoga em favor do profundo engajamento do escritor como fator indissociável da sua prática.

A liberdade de expressão que necessariamente seria o problema a se tratar antes de mais nada, devido a sua natureza primordial e do seu próprio exercício dar origem às expressões da qual a literatura é um exemplo, será por hora abordado depois dos outros dois pontos que dão o título ao texto. Os motivos são os seguintes: não é objetivo aqui traçar uma abordagem ontológica do exercício dessa liberdade, nem mesmo falar dos grandes empecilhos históricos à esse exercício, também porque tratando da relação entre a literatura e o engajamento a princípio, poderei depois falar sobre a liberdade de expressão especificamente incidindo sobre a literatura engajada que sendo onde ela naturalmente mais atua é aqui o nosso principal objetivo.

O lugar onde este texto se apresenta é ainda um fator de consideração e sua postura(de ambos) refletem o seu íntimo. Um "ambiente", sem fins lucrativos, que se propõe a “dizer”... mas aí já entramos na questão: que é esse “dizer”? O escritor de ficção se debate duramente com o seu texto e esse embate só termina com um rompimento, o escritor o “abandona”. Desvela-se num momento autor e obra. Sem despedida isso se dá porque é preciso e, só aí a obra "é". É o que é, pedaço de alguma coisa, símbolo do rompimento ao qual o autor se propõe a executar cotidianamente. Só assim ela se faz. Sem o signo do abandono ela é só ideia morta pois ainda de posse dos esforços concluintes do autor nunca seria “expressa”. Mas ainda aí não se responde, sobre o “dizer”. O texto não-ficcional tem uma “vida” diferente, e o autor nunca rompe com ele sem romper ao mesmo tempo com a ideia. Ao texto no jornal o autor paga o preço de manter aí, mesmo incompleta, uma força criadora ligada à origem, se ela se mantém, o texto sobrevive. Ele é incompleto, sempre dependendo do acordo que une a generosidade do autor e a do leitor, mas o autor reclama no mesmo pedido interpretativo a sua parte de significado.

Esse é o problema do “dizer”. O texto que só vem a se constituir na leitura é impingido ao autor com todas as leituras que fazem dele. Não há completude na origem, mas o autor se faz no futuro sempre responsável pelas interpretações da sua obra. Boas e ruins. Cabíveis e incabíveis.

Essa poderia ser uma boa forma de perceber o que pode causar tanto alvoroço em cima do texto escrito. Isso que dá o valor de perpetuação a ele e que assusta e encanta a uns e outros.... Mas não é exatamente isso que vem a relacionar diretamente e muito menos sustentar um texto sobre o assunto, não é por isso que Liberdade de expressão está ligada de alguma forma à literatura engajada(entenda-se a literatura engajada politicamente). A questão é tão outra, tão mais claramente superficial. Abrangente, mas os exemplos são estritamente limitados e específicos.

Assim como o texto só vem a se completar no “contato”, também o que decorre dele só se mostra com a participação do “outro”. A censura (e é isso que colocamos como problema principal ao falarmos sobre a liberdade de expressão) também só é eficaz quando alguém completa o seu ciclo, este termina sempre ou com uma submissão ou com uma insurgência. Se entendermos que a “literatura”, assim como afirma o filósofo espanhol Ortega y Gasset é “um ato de rebeldia permanente contra o contorno social, uma subversão” mais naturalmente compreenderemos o quanto mecanismos de censura tendem a fazê-la alvo de seus esforços.

Então voltamos ao caso específico da publicação em algum "ambiente"(jornal, blog, revista, livro, etc.). O leitor vê no texto uma imagem imprescindível do seu autor, legitimado logo pela “assinatura”, comumente o público que lê cria para o “ele” que assina o texto uma estrutura de posições ideológicas que deveriam convir e compactuar diretamente com a sua prática, portanto, ele cria a sua “imagem social”. Até aí tudo bem, mas o que é que percebemos, principalmente aqui ao nosso redor com o que vem a ser tomado como uma “imagem social” e principalmente o modo como o indivíduo que ela reflete “age” (deve agir)? Vemos que a postura mais comum julga o silêncio sempre preferível à afetação do outro, à indisposição com o outro. O silêncio sempre preferível à exposição de uma situação de injustiça, seja ela com o patrão, seja com a polícia, seja com a família. Silêncio. Manutenção dos problemas, do erro e da injustiça pelo silêncio, e pior, silêncio motivado pelo medo, pela ignorância ou pela conservação de uma posição “confortável”.

Neste "ambiente" onde o que se “diz” é ainda mais forte por estar posto no texto escrito, escolhemos uma postura: todos os textos são assinados, os que não têm o nome do autor logo abaixo, é porque sua assinatura está no final e é em nome de todos os que fazem parte da sua produção. Quando é opinião comum o texto não tem assinatura individual, quando a opinião não é comum a todos, ele é assinado pelo seu autor.

Sartre disse que “cada palavra é um caminho de transcendência, dá nome e forma às nossas afeições”. As palavras desses textos, dos textos que são deliberadamente engajados são assim também. Como na literatura de Dostoiévski é pelas palavras lá escritas que emprestamos as nossas angústias a Raskolnikoff, é pelas palavras sobre política, sobre a sociedade, sobre as injustiças sofridas, que esperamos que o leitor empreste os seus sentimentos sobre estas coisas, as suas experiências na individualidade para construir o significado maior, para completar a crítica, a exigência, o protesto do texto.

A censura tem o pior resultado possível, deixa o texto incompleto, ela, calando a voz do dito, o mata. Se hoje a censura é mais amena, a “quê” do leitor realmente esse texto se dirige? À censura-de-si, a autocensura. Se como afirma Sartre a obra literária é um apelo ao leitor, se é só através dele que o trabalho por meio da linguagem vai passar para a existência objetiva, é preciso que o leitor não reprima por nenhum expediente ao que nele o texto se dirige, é preciso que ele seja livre. O texto se dirige à sua liberdade leitor, e é por ela, acima de qualquer coisa, que mesmo no consenso eu assino.