quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

1º ATO – Ela Faz Cinema


Andam aparecendo, há tempos, algumas coisas na televisão que podemos dizer que merecem ser comentadas. Em específico quero ressaltar as minisséries que vêm sendo transmitidas por uma emissora de grande porte esta que, aliás, não precisa do seu elíptico nome aqui mencionado. Esquecendo parcialmente questões referentes a produtos midiáticos e, principalmente ao mercado capitalista, algumas dessas minisséries têm nos servido de produtos artísticos muito agradáveis e de qualidade, dos quais posso citar sem cerimônia e começando pelo que considero o mais impressionante deles, “Hoje é dia de Maria”, também “A pedra do Reino”, Capitu”, dentre outras mais antigas ou mais recentes. Cada uma com suas particularidades, seus defeitos, até por que nos chocamos com a estranheza que existe em coisas dessas conviverem com “big brothers” da vida... No entanto, não é difícil entender os motivos.

Ontem começou mais uma minissérie que a julgar pela aglutinação intersemiótica que pretende, é no mínimo interessante. A proposta é transformar canções de Chico Buarque em histórias, em episódios divididos em atos, “Amor em quatro atos”. O primeiro Ato exibido ontem leva o nome de uma canção, e creio que podemos entender sem leviandade que a canção que dá o título funciona mais como uma espécie de argumento do roteiro do que apenas como ponto de partida para uma ampliação exclusiva da história que a letra conta (e canta). O que percebemos é que há uma junção de elementos de outras canções e de outras formas de arte apresentadas com malícia e humor. Há nesse episódio algumas características que já notamos nas séries anteriores, das quais a que se nota mais claramente, é o estilo do narrador, idêntico ao “visto” na série passada denominada “As Cariocas”. Esse narrador, que está mais pra comentador, complementa as cenas com uma boa dose de sarcasmo enquanto guia o espectador por entre a comédia fina de pequenos detalhes e ironias que se desencadeiam na trama. O que está na tela, a ficção criadora daquelas vidas, sempre foi uma tentativa ntendida como inócua, já que a jurisdição dita “realidade”, nunca poderia ser criada pelo humanum laborum, apenas vivida, experimentada, longe do seu domínio na esfera da criação da sua própria experiência, sempre em segunda e terceira instâncias. Desde muito tempo é opinião considerada. No entanto não é esse modelo excludente que supomos acontecer na relação entre a ficção e a realidade, muito menos levando em conta como ela é representada e principalmente “lida” pelo outro extremo igualmente essencial na construção do significado: o espectador(leitor). Concebo que


A leitura recíproca dos significantes se realiza portanto como movimento iterativo entre os dois sistemas, mutuamente excludentes, de signos. Este movimento decorre, por um lado, da contrafação dos dois mundos, mas disso resulta, por outro lado, que o mundo artificial não significa a vida pastoril e que o mundo sócio-político não é a sua mera facticidade. Ler é ora decifrar de um palimpsesto, ora projetar uma significação, ora revelar algo oculto, ora contestar algo dado, ora imaginar algo possível.(ISER, p.263, 1996)


como afirma Iser ao falar sobre o jogo que há entre o fictício e o imaginário. Que relações há entre o nosso sistema de signos que criaram na mente do criador da minissérie um vendedor de “fast food” árabe apaixonado pela voz de um megafone, uma diretora de “curtas” noiva de um pseudo-príncipe preso à época da monarquia e um pedreiro que gosta de samba e cerveja na “Toca da Onça”? E o que existe de singular no diálogo entre esses dois vizinhos hierarquicamente distantes pela realidade e pelo tempo(o trabalho de construção dele vai acabar logo, assim como o clip dela sobre “Construção” também), diálogo sem mentiras apenas com um jogo de linguagem fragmentado e mesclado entre oclusões e desejos? Isso tudo pra mim é ponto pra minissérie, uma boa dose de seleções e supressões da linguagem em nome de um resgate extratextual que se constrói na voz do narrador e na mente da gente que assiste.

Mas o mais interessante de tudo a meu ver é o paradoxo que existe entre dois componentes significantes presentes na minissérie: a apresentação ultrarrealista do cotidiano e a fantasia que inadvertidamente torna o cotidiano mais real. É realmente paradoxal e um tanto absurdo ser, invariavelmente o que está apresentado de forma fantástica, que determina o quão realista e próximo do cotidiano “vivido” pelas pessoas estão as cenas representadas. Um exemplo peculiar é o grau de contrassenso da vida da personagem Rafic, o que faz dela ainda mais plausível no nosso mundo. No seu trailer, a história começa e termina, é lá que o narrador se apresenta como um outdoor ambulante (ironia entre o vae victis do trabalhador desempregado e um linguajar erudito de puro sarcasmo). Também o caso da incomum ordem epistemológica empreendida no construção (isso é um referente constante e metalinguístico) da minissérie, é muito comum vermos adaptações de obras literárias, e até razoavelmente de livros que se baseiam em obras cinematográficas. Aqui temos um caso que vem da música, uma exploração muito importante do grau de complexidade das letras de Chico Buarque. Poderíamos até estender esse pensamento à literatura, mesmo a contragosto do cantor e compositor que já disse muitas vezes, até com desdém, que sua música é musica e não poesia, literatura. De fato é inegável o grau de poeticidade presentes com ou sem intenção do seu criador e que passa para todas as leituras que se façam da sua obra.

Bom, o que quero dizer é que essa mistura de textos aumenta a complexidade e favorece a obra dando-a novas dimensões, criando mais e mais relações contextuais e inter-textuais. As transgressões causadas por esse aglomerado de signos e referentes transcende a nossa relação com o objeto e tudo que vemos é componente dialógico. E aquela cena virtualizada no ato de interagir como os signos nos permitem extrapolar o nosso mundo individual, nos abrem um universo de possibilidades. Nos é grato participar da arte dessa forma (é claro que isso é metafísica do entendimento).

Espero na continuidade dos atos, uma nova surpresa a demonstrar a infinitude de tantas coisas que já nos pareciam esgotadas de significado, desde as músicas que já sabemos de cor, até as velhas piadas do cotidiano que parece sempre igual.


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