domingo, 17 de outubro de 2010

Meia Sonata

Meia sonata. Um barulho de sirene. Um olhar turvo. Um sonho. Levantar não é tão glorioso assim, o dia quase sempre começa desacreditado. Dois ou três passos iniciais, trôpegos, cambaleantes, separam o desvanecer noturno do movimento contrário do relógio, dos sons e da certeza(ou seria da incerteza?). A sujeira se condensa pelos cantos, - Preciso arrumar isso, limpar, preciso ser mais feliz, ser reconhecido, preciso ganhar muito dinheiro,... é... a sujeira fica pra depois. Esse céu que vejo parcialmente enquanto tomo café, quase que não significa nada pra mim, devo pensar nele como a última morada dos justos ou como a futura via de tráfego dos veículos flutuantes? Tanto faz. Minha condição não permite nenhum dos dois, tristes realidades ou impossíveis enganos. São as minha sopções.

Que tolo eu sou, tantas subjetividades alheias eu vivi, quantos invólucros dessas mentiras estão na minha estante que me satisfizeram pelo tempo que foi permitido em mim um abono crasso por pouco empenho. Hoje olhando a minha sustentadora de ilusões só me atrai esse pequeno busto de Gêngis Kahn feito em barro com o nariz quebrado que uso para sustentar os livros, ao menos a poeira gosta muito dele e, o livros muito mais pesados, fingem um respeito mantendo-o quase sempre na posição de quem segura alguma coisa.

Mais uma fuga. Saí hoje mesmo consciente de que isso mais me aborrece do que qualquer outra atividade banal. No caminho, as coisas, como sempre nem pareciam muito reais, não por falta de materialidade como de costume, por excesso dela. Andei até perto do lago, que na verdade não é lago, é um campinho de futebol. Mas bem que poderia ser um lago. Olhei tudo que poderia ser água e tudo que poderia ser peixe, e tudo que poderia ser respingos no meu rosto com ânsia de nadar. Isso acho que chega perto da felicidade.

“Logo, nunca nos será permitido, sempre que tratarmos de investigar as coisas, concluir algo a partir de abstrações e deveremos tomar o máximo cuidado para não misturar aquilo que existe somente no entendimento com aquilo que existe na coisa”

Sempre me lembro do que li da obra de Spinoza quando estou pensando assim. Mas eu não quero “dicatur perfecta” Spinoza. Eu não quero “quare recta iveniendi”. Eu queria xingar a tua mãe Spinoza.

Meia sonata. Passa agora pelo meu lado, intersecção do meu círculo de imaginação, uma mulher. Ainda ouço (eu queria que você soubesse). (ainda ouço) Eu queria que você me desse. (ouvindo) Eu queria que sentisse, um segundo de tempo perdido.

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